“Se eu fosse você”… por Luciano Nascimento

“Se eu fosse você”…

 Não. Não vou falar sobre os filmes estrelados por Tony Ramos e Glória Pires. Eles (os filmes e os artistas) são ótimos, merecem todos os elogios que recebem, mas esse não é o objetivo aqui. Quero falar sobre o “outro lado da moeda” da expressão “se eu fosse você”.

Talvez muitas pessoas não se deem conta de que na maioria das vezes em que a gente diz “se eu fosse você”, a intenção por trás da frase é sugerir à pessoa com quem se fala como ela deve agir. É algo do tipo: “Olha, eu sei o que você deve fazer. Faz assim, assim, assado…”. Quer dizer, na verdade, a gente está dizendo para essa outra pessoa que ela não sabe como gerenciar um problema por que ela própria está passando, mas nós temos a solução para esse mesmo problema. Isso parece meio arrogante, eu acho.

E se, em vez de tentar sugerir (ou impor) a qualquer outra pessoa a nossa própria visão de mundo, nossa própria maneira de agir, nós procurássemos aplicar o “se eu fosse você” a nós mesmos? E se, ao vermos alguém tomar determinada atitude ao passar por uma situação difícil qualquer, nós experimentássemos nos colocar no lugar daquela pessoa e nos perguntássemos: “e se eu fosse você? como eu me sentiria”?

É claro que pode ser difícil nos colocarmos no lugar dos outros, imaginarmos como nos sentiríamos se sujeitos às mesmas circunstâncias a que nosso próximo está sujeito. Quando somos alvo de um gesto ríspido, uma resposta grosseira, ou mesmo de uma violência maior – um assalto ou uma agressão física, por exemplo – é bastante natural que não consigamos nos ver no lugar do nosso agressor, nem sequer tentemos entender o que pode tê-lo levado àquela agressão. Mas será que um exercício assim também não seria parte do caminho rumo à prática efetiva do “amai ao próximo como a ti mesmo”, que Jesus Cristo diz ser o maior de todos os mandamentos (em acréscimo ao “amai a Deus sobre todas as coisas”)?

Vivemos tempos muito difíceis, é verdade. Não só Rio de Janeiro, mas no Brasil inteiro e no restante do mundo também. As coisas não estão nada fáceis. Na nossa cidade, balas perdidas, arrastões, o Estado muitas vezes ameaçando mais do que protegendo; nosso país vivendo um interminável terremoto moral que não deixa crença sobre crença; na África e na Europa, a ganância, a fome, a guerra e o desamparo mutilando nações inteiras… Nem as crianças estão a salvo de tanta dor!

Num cenário assim, será que é possível se colocar no lugar do outro? Ou o instinto de sobrevivência impera, e é “cada um por si”? Ainda será possível lembrar que, muitas vezes, o menino/ adolescente/ jovem que rouba um celular na rua para comprar um tênis ou para saciar seu vício também foi roubado, ele mesmo, desde sempre, no seu direito à família, ao respeito, à educação, à cidadania, à formação moral e religiosa que serviria de freio ao seu atual gesto criminoso? “Se eu fosse você”, menino, se eu fosse fruto de uma gravidez indesejada (tão frequentemente resultado de estupro e/ ou de pura ignorância), se meus pais não tivessem me amado e acarinhado desde meu primeiro minuto de vida, se minha alimentação não houvesse sido sempre muito boa, se meus professores não tivessem sido pessoas dedicadas, se meus avós não demonstrassem sempre seu orgulho por mim, enfim, se ninguém à minha volta fosse exemplo real de que é possível ser respeitado e manter a cabeça erguida apesar da humildade e da falta de instrução… será que em meio a tantas negativas, a tanta privação de direitos, no bojo de tanta violência simbólica (a violência que marca o espírito sem tocar o corpo) eu conseguiria parecer menos abjeto que o “cracudo”, ou ser menos violento que o menino/ adolescente/ jovem que assalta e mata por causa de um celular?

“Se eu fosse você, meu irmão, seu eu passasse pelas mesmas dificuldades que você, pode ser que eu fizesse coisas muito ruins”. Enxergar a si mesmo assim talvez também seja parte do significado mais amplo do “amai ao próximo como a ti mesmo” que Jesus Cristo nos mandou praticar.

Luciano Nascimento