Como seguirás? * colaboração Dirce Sales

 

Como seguirás?

 

A tua escala de valores necessita de uma avaliação.

 

Depositas muita importância em moedas e gemas preciosas, telas famosas e tapetes especiais, prataria e cristais…

 

E mesmo quando o alento da fé te bafeja o coração, buscas doutrinas exóticas e comportamentos alienantes, empreendendo viagens que te levam à presença de personalidades estranhas ou carismáticas.

 

Acalmas-te por um momento e já noutro retornam a incerteza e a insatisfação. A ânsia de querer mais e o veemente desejo de abarcar tudo exaurem-te os nervos, e o equilíbrio bate em retirada.

 

Os tesouros valem o preço que lhes atribuis. Nenhum d’Eles preenche o espaço da saudade de um ser amado ou traz o amor legítimo de alguém ao coração solitário.

 

No deserto ardente ou numa ilha solitária não te propiciam uma gota de água ou um baga de pão.

 

O conhecimento sem disciplina mental, igualmente faz-se instrumento de perturbação e instabilidade…

 

As várias teorias, díspares e conflitantes entre si, aturdem a razão.

 

Toda busca da Verdade, para legitimar-se, deve ser fundamentada na paz.

 

A pressa responde pela imperfeição de qualquer obra quanto a indolência pela demora da realização.

 

Acalma-te, dá ritmo equilibrado aos teus interesses e encontrarás o filão de ouro que te conduzirá à felicidade.

 

Jesus já veio ter contigo e deixou-te precioso legado, que ainda não conheces.
Ao Mahatma Gandhi bastou o “sermão da montanha” para completar-lhe a preciosa e missionária existência de homem de fé e ação.

 

Já o leste, meditando e aplicando-lhe os conceitos no dia a dia?

 

Reavalia, pois, a tua existência, porque, talvez, sem aviso prévio, a morte chegue à tua porta, e, sem pedir licença, informe que está ha hora do retorno.

 

Como seguirás?

 

 Pelo Espírito Joanna de Angelis Livro: Momento de meditação [Divaldo Franco]

 

 

“Sobre oportunidades” * por Luciano Nascimento

Na noite do último dia 20/09, a atriz norte-americana Viola Davis se tornou a primeira mulher negra a receber o prêmio mais importante da TV dos EUA, o Emmy. Ao discursar em agradecimento pela premiação, Viola disse: “a única coisa que separa as mulheres negras das outras pessoas é a oportunidade. Você não pode vencer um Emmy por papéis que simplesmente não existem”.

No mesmo dia (domingo, 20/09), no Rio de Janeiro, houve arrastões em praias da Zona Sul; circulou também a notícia (comprovadamente verdadeira) de que há moradores daquela região nobre da nossa cidade se armando e querendo “fazer justiça” com as próprias mãos, atacando ônibus das poucas linhas que ainda ligam outras regiões àquelas praias, e agredindo jovens (supostamente) suburbanos e pobres que se dirijam a elas.

Pode não parecer, mas esses acontecimentos se relacionam muito intimamente. E mais: eles se relacionam também com o mesmo cenário em meio ao qual a umbanda surgiu, o cenário tenso (de pobreza, violência e discriminação social e racial) que deu a ela algumas de suas principais feições – a reunião de vários credos, a tolerância e a resistência. Em resumo, o que liga a religião que praticamos aos últimos acontecimentos de violência nas praias cariocas e ao discurso de Viola Davis é precisamente uma palavra usada pela atriz norte-america: “oportunidade”.

A umbanda é a primeira religião tipicamente brasileira e, assim como nosso povo e nossa cultura, de maneira mais ampla, ela também é fruto da miscigenação que aconteceu em nossas terras. Na umbanda temos heranças do catolicismo, do kardecismo, de outras religiões originadas de cultos africanos (como o candomblé e o vodu), além de alguns ritos e crenças de certos povos do oriente. Dentro dos terreiros, essas heranças convivem de maneira harmoniosa, em geral. No gongá, por exemplo, São Jerônimo é Xangô, São Sebastião é Oxóssi que, por sua vez, também é lembrado nas mais variadas imagens de índios… E há ainda muito respeito na louvação aos Pretos Velhos, figuras de grande importância para nossa religião.

Essa reunião de vários credos, essa miscigenação religiosa só é possível graças à tolerância em que a própria umbanda se sustenta. Não a tolerância no sentido de “aceitar a diferença”. Não. A tolerância em que a umbanda se sustenta – e que prega – é, na verdade, a compreensão de que cada um de nós sempre tem algo a aprender com todos. Ou, nas palavras de um Preto Velho, “nenhuma religião tem toda a verdade; cada uma tem um pedacinho da verdade”.

Entender “a verdade” como um imenso “quebra-cabeças” ajuda a aprender a ser tolerante. Afinal, quando se enxerga que ninguém tem o “quebra-cabeças” montado, é menos difícil aceitar que peças importantes dele podem estar justamente nas mãos daquela pessoa com quem não simpatizamos muito, ou mesmo daquela outra cujos hábitos por vezes nos agridem. Nenhum “quebra-cabeças” se faz de peças absolutamente iguais; é preciso aprender não só a tolerar as diferenças, mas, mais que isso, aprender a apreciá-las.

Esse aprendizado não é coisa banal; às vezes ele demora anos… demora muitas vidas, às vezes. Por isso é preciso resistência. É preciso resistir à dureza do cotidiano (o de agora, como o do começo do século passado) que tantas vezes nos faz intolerantes e descrentes; é preciso resistir à violência e ao medo que (hoje, de maneira semelhante ao que acontecia no tempo em que o Caboclo das Sete Encruzilhadas lançou as bases da umbanda) nos afastam da certeza de que Deus não vive longe, mas sim em tudo e em todos, incluindo naquelas pessoas que não creem nele ou que não são tolerantes com o próximo; é preciso, por fim, resistir à cegueira para a visão de que, muitas vezes, o que falta às pessoas é a “oportunidade” de aprenderem a agir de maneira diferente, de maneira melhor para elas mesmas e para todos.

Viola Davis só foi premiada porque teve a oportunidade de trabalhar. Que reais (repito: REAIS) oportunidades de aprendizado terá tido alguém que assalta e agride? O que as pessoas – os grupos de jovens da Zona Sul – que se reúnem para pagar violência com mais violência estão fazendo com a melhor oportunidade (de vida material, pelo menos) que têm?

E eu? o que eu estou fazendo com a oportunidade de me tornar melhor que a umbanda me oferece? Apesar das dificuldades do cotidiano, eu estou tentando compreender (e ser mais tolerante com) as diferenças entre mim e os outros, ou ando por aí repetindo o mesmo discurso de ódio e segregação que a umbanda veio combater? Estou valorizando as diferenças de credo religioso ou estou apenas me tornando tão cego e radical quanto quem me acusa de “não acreditar em Deus”? Estou resistindo ao hábito tão humano de “sentar no próprio rabo para criticar o rabo dos outros”?

Eu sempre procuro pensar nessas coisas. E, como não faz muito tempo que conheci a umbanda, a conclusão a que cheguei até agora é a seguinte: na minha vida, a umbanda é essencialmente isso: uma bela oportunidade de aprender a me tornar melhor. E eu não quero desperdiçar essa chance.

por Luciano Nascimento