Tempo de arrastão * por Luciano Nascimento

Tempo de arrastão * por Luciano Nascimento

Tempo de arrastão

 “Larga é a porta da perdição, porque são numerosas as paixões más e porque o  caminho do mal é frequentado pelo maior número. É estreita a da salvação, porque o homem que a queira transpor deve fazer grandes esforços sobre si mesmo para vencer suas más tendências e poucos são os que se resignam com isso. É o complemento da máxima:  ‘Muitos são os chamados e poucos os escolhidos’.”

(Evangelho segundo o espiritismo, cap. XVIII, item 5)

  Pensando em sobre o quê escrever aqui, imaginei que talvez fosse uma boa ideia recorrer ao Evangelho e dar uma forcinha para a tal “inspiração” – que não me vinha de jeito nenhum! Tentei cumprir o ritual: fiquei sozinho no escritório, sentei confortavelmente, procurei relaxar e esvaziar a mente para só depois abrir o livro e ver o que ele me diria. Os dois primeiros passos do ritual foram cumpridos com facilidade. Já quanto a relaxar e esvaziar a mente…

Sou agitado e muito ansioso; sempre penso e executo várias coisas ao mesmo tempo. Fechado no meu ambiente de trabalho, acomodado e buscando relaxar, meus pensamentos, em vez de se acalmarem, entraram em disparada. Foi bem pouco o tempo que levei indo do barulho no apartamento do vizinho às dificuldades da economia mundial; nesse caminho, percebi o céu de novo coberto de nuvens, lembrei de duas planilhas ainda por preencher no trabalho e do quilo do tomate pela hora da morte na feira no último domingo. O abatimento pela situação micro e macroeconômica só não tomou conta de mim porque ao longe aquela vinheta famosa me recordou que “Na tela da TV, no meio desse povo/ a gente vai se ver“…

Desisti da parte de meus planos que previam relaxamento e concentração. Lutando comigo mesmo e contra a tal vinheta chiclete, fiz uma oração rápida pedindo ajuda da minha família espiritual na seleção da mensagem que viria, e, sem olhar para o livro, abri-o num só gesto.

Se é que houve, acabou-se o mistério: daí surgiu a passagem do evangelho que serve de prefácio a este meu texto. Contudo, isso a explica, mas não a justifica. O que justifica a presença dela aqui é a íntima sensação que tive ao ler aquelas palavras naquele momento…

É um tremendo clichê, admito, mas não consigo deixar de assumir: tive a nítida impressão de que aquela oração feita havia poucos segundos , mesmo pequenina e rápida, tinha sido ouvida; tive a nítida impressão de que aquele trecho do evangelho, já meu velho conhecido, cabia como uma luva para a parte impublicável dos pensamentos que tive enquanto, minutos antes, eu ainda tentava “relaxar, esvaziar a mente e me concentrar”; tive a nítida impressão… quer dizer, tive a certeza mesmo de que era sobre isso que eu tinha que escrever.

E nem tanto porque o carnaval está próximo. Todo mundo sabe que o carnaval é tremendamente propício ao exagero, ao descontrole, à “perdição” – como a ela o trecho do Evangelho se refere. Não acredito que seja necessário voltar a isso.

Mas acredito, sim, que seja necessário pensar um pouco no quanto todos estamos, minuto após minuto de nossas vidas, expostos a uma imensidão de fontes de pensamentos ruins, de ideias nocivas ao nosso bem-estar físico e espiritual. A atual rapidez no fluxo de informações, as várias mídias, o estarmos 24 horas por dia “conectados à internet”… tudo isso nos expõe todo o tempo, de maneira quase imediata, a tudo: ao melhor e ao pior do que a Humanidade produziu e produz – a remédios e venenos, a carinhos e torturas, a flores e armas, a cartas de amor e de homicidas, a calmarias e paixões, à salvação e à perdição…

Não há dúvida: o avanço das tecnologias de comunicação e informação é um fato irrevogável. Também não há dúvida quanto à importância de se estar o tempo todo vigilante e de não se deixar levar nas ondas dessa tsunami: as informações vêm e vão, passam por nós de modo cada vez mais veloz, e é preciso muita força de vontade para não ser arrastado. É preciso dar a si mesmo o tempo para aprender a resistir à rede do arrastão…

Porque talvez a gente nem se dê conta de uma coisa absolutamente óbvia e, por isso mesmo, negligenciada: nem o passar do tempo nem a grande rede arrastam coisa alguma sozinhos. Somos nós, homens e mulheres de todo o mundo, que decidimos quanto de nossa energia emprestamos a eles.