Direto da cozinha * por Luciano Nascimento

Direto da cozinha * por Luciano Nascimento

                                Manjericão, alecrim, noz-moscada, coentro, orégano, alho, salsa, cebola e cebolinha, açafrão, cominho, curry, louro, manjerona, páprica, sálvia, tomilho… Sal e pimenta a gosto. A lista é bem conhecida: são temperos. Alguns deles, apenas; existem muitos outros, quase incontáveis. Muitos dessa lista enorme costumam estar à disposição de boa parte das pessoas em todo o mundo, prontos para serem usados na culinária, tanto na cotidiana quanto na mais sofisticada. Aliás, é bem fácil reconhecer a falta que um bom tempero faz. Em geral as pessoas não gostam da famosa “comida de hospital”: é sem graça, insossa.

                               Cozinhar talvez seja a arte de combinar temperos. Alho, cebola e louro na medida certa no feijão e no arroz, coentro e salsa no peixe, curry e alecrim no frango, orégano e manjericão na pizza… Sem pimenta não existe comida mexicana; na baiana é ela quem dá a temperatura. E pouca coisa se faz na cozinha sem pelo menos uma pitadinha de sal. Cozinhar é mesmo a arte de combinar temperos, a arte de buscar aos poucos o equilíbrio, a harmonia entre os sabores: o salgado, o amargo, o azedo e o doce.

Pensando bem, viver é bem parecido com cozinhar. Porque na vida também é essencial saber combinar os temperos. Mas, neste caso, há uma particularidade interessante: diferente do que acontece na cozinha, onde o cozinheiro não se confunde com o prato que prepara nem com os temperos que usa, na vida cada um de nós é, ao mesmo tempo, o prato, o tempero e o cozinheiro.

Sim. Às vezes somos salgados, outras vezes azedos, todo mundo passa por um ou outro momento de amargor, e não há quem nunca tenha sido minimamente doce. Dá até para tentar relacionar as diversas fases da vida com esses sabores. Na infância, na adolescência e na juventude somos, em geral, mais salgadinhos: temos energia, fazemos diferença nos lugares em que chegamos, de vez em quando exageramos na dose e até aumentamos desnecessariamente a nossa “pressão” e a dos outros. Aí os problemas da vida adulta (as contas a pagar, as relações profissionais, o vizinho chato e barulhento etc etc) começam a nos aproximar cada vez mais da acidez da crítica, da desconfiança, do sarcasmo… Então é preciso ser forte para resistir, caso contrário (já com menos energia, menos salgadinhos) aos poucos nos tornamos mais e mais amargos. A amargura chega pra valer quando a ignorância, a inveja, as frustrações acumuladas e não dissipadas enfim nos travam e envenenam a língua. Aí transbordamos em puro fel. É a velhice mais melancólica que há: a velhice de quem não soube se temperar e por isso se afoga dia a dia no próprio fel.

Oposta a tamanha tristeza é a velhice resultante do esforço de, ao nos cozinharmos a nós mesmos, nunca deixarmos de lado a doçura. É imprescindível cultivarmos o hábito saudável de nos adoçarmos sempre que possível. Ser meio “meloso” todo o tempo parece coisa para espíritos mais evoluídos, é certo! Mas é bem possível tentarmos ser agridoces, pelo menos. O agridoce tem seu charme e seu valor, quem disse que não?! Na receita de que nos fazemos todos os dias, é possível harmonizarmos engarrafamento com música, pagarmos contas com sorrisos no rosto, respondermos grosserias com preces silenciosas (se não pelos outros, por nós mesmos), e, principalmente, combatermos toda a violência do mundo “lá fora” com o máximo de paz interior. Como? Esse é o segredo, o ingrediente secreto do “Grande Chefe”: um ingrediente que não é ingrediente.

Porque a “paz interior” não é um produto pronto, mas, sim, a constância e a firmeza no produzir. “Paz interior” não é, portanto, um tempero; é a própria temperança, o permanente exercício de equilibrar alegrias, certezas, desejos… e tristezas e dúvidas e frustrações também, porque não é possível fugir de nenhuma delas.

É por isso que a cozinha e a vida são tão parecidas: uma é a arte de buscar combinar temperos; a outra, a artimanha de tentar harmonizar tudo (em nós mesmos e com os outros), na mais precisa temperança.

 Luciano Nascimento

Palestra Doutrinária

Palestra Doutrinária

No próximo dia de 01 de outubro, receberemos em nossa casa a expositora Neusa Tamaio, do C. E. Cristófilos, para mais uma palestra. O tema será “Planejamento reencarnatório”.

O evento terá a duração de 45 minutos, começando às 17 horas.

A casa será aberta às 16 horas para anotação dos nomes da assistência; essa anotação para no início da palestra e reinicia depois dela.

Para sair do armário * por Luciano Nascimento

            Li noutro dia uma linda metáfora sobre o tempo: ele é “uma velha costureira especializada em reparos”. Gostei tanto que até agora estou pensando nisso.

            Fiquei pensando na vida como um longo lençol branco. O nascimento, seu desdobrar-se; a infância, o momento em que começam a surgir nele as primeiras cores (manchas involuntárias ou figuras caprichosamente desenhadas vão tomando forma conforme as experiências se sucedem); na adolescência e no começo da juventude, novos matizes aparecem, antigos esmaecem ou se confirmam, definindo a estampa que, na maturidade, dá identidade ao grande tecido que um dia tinha sido certamente branco como aparentemente todos os demais.

E na maturidade, entre certezas incertas e aparências evidentes, o lençol se torna mais ou menos capaz de olhar para si mesmo e ver suas manchas, seus desenhos. É quando ele também se dá conta de que nunca esteve só, sempre esteve sob a vigilância atenta de alguém, só não sabe quem. O reconhecimento desse alguém muitas vezes é custoso e, não raro, na agonia da busca, o lençol se amarrota, se esgarça aqui e ali, um ou outro fio se solta…

Não faz mal: quando menos espera, quase sem querer, ele percebe que suas manchas, desenhos, puídos… todos fazem parte de sua natureza. Nem mesmo os possíveis rasgos, se aconteceram, foram capazes de reduzi-lo a menos: ele é um lençol, inteiro. E finalmente entende quem constantemente o vigiava: “uma velha costureira especializada em reparos”, o tempo.

Está pronto, então, para receber em si mesmo a última insígnia: a marca da percepção de que todo lençol é tanto mais marcado por remendos quanto mais se aventurou fora do armário. Porque, dentro do armário, qualquer lençol só têm duas alternativas: amarelar ou ser devorado por traças.

É nesse momento que todo lençol manchado, estampado, puído, remendado… se dobra e agradece a Deus por toda brancura que ficou pelo caminho.

Luciano Nascimento

Um outro “Pai nosso”

Um outro “Pai nosso”

                       Pai nosso, Tu estás no céu. Como Tu és onipresente, Tu também estás em mim. Traz-me então o céu, Pai, enquanto estou na terra.

Não o céu onde habitam Teus anjos e santos. Mas, sim, o céu do equilíbrio, da harmonia, da compreensão. Sobretudo o da compreensão. Porque é só a compreensão que nos leva a perdoar os nossos próprios pecados, e quem não compreende os próprios pecados não pode perdoar a si mesmo nem a mais ninguém.

Pai nosso, traz-nos, então, o céu da compreensão. A compreensão de que somos todos falhos, de que é a falha que nos aperfeiçoa; de que a busca do céu acima de nossas cabeças é  um engano, porque o céu está dentro de nós e seu nome é “equilíbrio”.

Pai nosso, Tu que estás no céu, dá-nos, enfim, a compreensão de que o Teu próprio céu, Pai, nada mais é que a soma do equilíbrio alcançado por Teus filhos.

Assim seja.