Então? É Natal… * por Luciano Nascimento

Então? É Natal… * por Luciano Nascimento

[24 de dezembro de 2016. Jesus Cristo volta a Terra, sentado atrás de uma mesa, numa esquina qualquer do Rio de Janeiro. Logo se forma uma fila. Uma a uma as pessoas sentam de frente para o Mestre. As conversas não demoram muito. Todas começam do mesmo jeito…]

Então? É Natal. O que você fez?

– Então, Senhor, o Senhor sabe, né? Eu sempre fui uma pessoa muito boa.

– Continue…

– Sempre fui muito religioso, sempre ajudei as pessoas… sempre pratiquei a caridade.

– Sempre?!?!

– Sempre!!!

– Mas você vive dizendo que “bandido bom é bandido morto“, que “direitos humanos são para humanos direitos“!

– E não é, Senhor? A gente trabalha que nem um burro de  carga e vem um vagabundo e rouba, estupra, mata? Tem que pegar e matar mesmo!

– Mas você não está esquecendo que eu mesmo fui injustamente preso, julgado, condenado e crucificado (entre dois ladrões, um deles bom, inclusive)? Não está esquecendo que eu me entreguei a toda aquela violência exatamente pra que ninguém mais precisasse passar por nada parecido?

[Desconcertado] Ah, Senhor… Isso já é diferente…

[Com ar contrariado] “Diferente”, né? Sei… Tudo bem. Vamos adiante. Minhas anotações também dizem que você é muito preconceituoso.

– “Preconceituoso”, eu?!?! Isso não! De jeito nenhum, Senhor! Eu sigo à risca o “Amai ao próximo como a ti mesmo“!

– Mas você vive defendendo que “as mulheres têm que se dar o respeito“, que “Deus criou Adão e Eva, não Adão e Ivo“, que “tatuado, cabeludo  e barbudo é tudo marginal“…

– E não é, Senhor?!? Imagine que o Senhor tivesse uma filha – com todo respeito, tá, Senhor?, é  só um exemplo. O Senhor ia gostar que ela namorasse um cara cabeludão e barbudo?

[Irritado] Você já  deu uma boa olhada pra mim?

[Ainda mais desconcertado] Ah, Senhor… Isso já é diferente…

– “Diferente”, né? Sei, sei… Mas, como você mesmo lembrou, eu disse “Amai ao próximo como a ti mesmo“; eu não disse “Amai ao próximo que você ache parecido com você mesmo“. Era pra “amar ao próximo“, só; amar a qualquer um, parecido com você ou não, “Adão”, “Eva”, “Ivo” ou “Zé das Couves”, pouco importa! Era pra “amar ao próximo” e pronto. E quanto a Maria Madalena? Lembra o que eu falei quando queriam apedrejá-la? “Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra“. Ninguém atirou pedra nenhuma.

[Tentando desconversar] O povo na sua época pecava muito, né, Senhor?

[Bastante irritado] Como é que é?!?!

– É, Senhor! O povo na sua época pecava muito! Era falta de informação. Aqui no Brasil também tá assim. O pessoal não lê um jornal, não lê uma revista… Aí acaba votando em político safado e ladrão, tudo em troca de bolsa de compra. E os jovens, que, em vez de estudar pra ser alguém na vida, resolveram agora invadir escola pra ficar de…

[Tentando conter a cólera] Chega! Você é mesmo muito preconceituoso! Não entendeu nada do que eu falei!

[Atordoado] Como assim, Senhor?!?! Mas eu já li o evangelho todo tantas vezes?!?! Eu até decorei umas passagens…

[Buscando recuperar a calma] Mas “decorar” o evangelho não é “praticar” o evangelho”. Você se julga melhor, mais inteligente, mais bem informado do que quem pensa diferente de você; isso é arrogância, é o oposto da  humildade que eu tentei ensinar quando lavei os pés dos meus discípulos. Você faz pouco caso da fome que as pessoas sentem; isso é indiferença e egoísmo, é o contrário da boa vontade e da compaixão que eu demonstrei  quando dividi dois peixes e cinco pães com cinco mil pessoas.

[Irritado, gritando] Isso é papo de comunista!!! Vai pra Cuba!!! O certo é o certo!! O mundo tá perdido mesmo! Onde já se viu?!?! Olha só: aqui no evangelho diz que…

[Sorrindo, desapontado] Ok, ok, ok… Tudo bem. Nossa conversa acabou. Pode sair aqui pela minha direita. Você vai ter muita gente com quem conversar…

[Aliviado] Ah!, ai sim! Que bom! À direita do “Filho do Homem”: o lado dos “escolhidos”, dos “homens de bem”…

[Triste] Ah… Isso já é diferente…