Mensagem transmitida na íntegra pelo nosso Zelador Indelécio dos Santos durante a festa de Oxossi, em 2004. Comemoração dos 50 anos de trabalhos mediúnicos.

Mensagem transmitida na íntegra pelo nosso Zelador Indelécio dos Santos durante a festa de Oxossi, em 2004. Comemoração dos 50 anos de trabalhos mediúnicos.

“Eu hoje estou aqui somente para agradecer a Deus, aos nossos Orixás e a vocês também que me acompanham por todos esses anos.

Desejo que vocês melhorem cada vez mais e que sigam a Umbanda com o mesmo amor e carinho com que segui até agora. O que é construído com corrente, com amor, nunca se acaba.

É preciso ter cuidado, ter amor de verdade, pois no Espiritismo não pode haver fingimento, ter mentiras, não pode haver invenção. Muitas pessoas, muitas casas se acabam porque inventam coisas que não existem no Espiritismo. Fazem apenas por vaidade para satisfazer sua vontade. São coisas que não cabem em nossa religião.

Eu conservei minha casa no chão puro, com folhas, esteiras, seguindo o que meus Guias me ensinaram. Sempre fiz o que os Guias me mandaram fazer. Ainda tenho papéis com orientações que me foram dadas em minha coroação.

Eu ainda hoje tremo diante da responsabilidade que assumi com os Guias e as pessoas. Eu não posso desejar o mal a ninguém, ferir as pessoas. Eu assumi a chefia para fazer a caridade a todos que baterem à minha porta. Não estou aqui para me envaidecer, para enriquecer, tenho muito amor pela minha casa e pelos guias. Aqui se trabalha muito pela caridade.

Eu sempre falo que não se constrói casa em dois dias, com pressa.

As decepções existem, os aborrecimentos, as vaidades nas pessoas que querem destruir o que foi construído.

Se o chefe não é bom, tem muitos defeitos, o médium deve ir embora. Todos são livres. A casa não prende ninguém, mas quem quiser ficar, eu não posso deixar solto, fazer o que quiserem. Um pequeno erro do médium, amanhã vai refletir na casa, em mim. Tenho que ficar atento, corrigindo pelo bem do médium e da casa.

Eu quero que vocês entendam que quando eu falar: “Não faça isso. Não diz isso.” É para o bem do médium. Quando chamar a atenção, perguntar com quem foi que ele aprendeu a fazer aquilo é porque estou tentando ajudá-lo. Na minha casa não se aprende nada de errado.

Eu nunca pedi para chefiar uma casa, nunca pedi pra fazer obrigação pra chefe de terreiro. Os chefes das casas me convidavam pra chefiar. Eu ficava receoso porque não sabia nada.

Os aborrecimentos numa casa espiritual são grandes demais, são constantes, mas o chefe não pode ficar no meio dessas coisas. Ele tem que correr em cima dos problemas, mostrar e agir na hora certa.

Um vem e diz: “Fulano fez isso, fez aquilo.” Eu preciso saber a verdade. Tenho que saber se ele fez mesmo. Não posso chamar a atenção de ninguém sem ter certeza do que foi feito. Não sei se a pessoa falou a verdade ou não, se compreendeu o que o outro quis dizer. Com quem está a verdade? Tenho que buscá-la.

O maior ritual dentro da Umbanda é a humildade, o amor e a fé. Se não houver isso, não se constrói nada, porque Deus é amor. Ele está presente em tudo que faço.

Nunca carreguei comigo uma guia, um patuá para proteção. Eu carrego Deus dentro de mim, essa é a minha maior proteção. “Deus é maior que tudo e acredito Nele.”

O médium não tem prazo para ser chefe de terreiro. Ele pode dizer: “… mas quando eu ficar velho, não importa mais.” Ele vai ficar velho quando ele quiser ficar. Eu não me sinto velho com 67 anos. Eu alimento o espírito com o trabalho espiritual. É nele que me fortaleço.

Essa casa tem uma raiz e ela não pode apodrecer, não pode acabar, nem sequer enfraquecer. Temos que deixá-la sempre viva, porque é ela que sustenta essa casa, que sustenta a todos nós. Toda casa espiritual tem que ter uma raiz bem plantada, bem segura.

É com o coração que recebemos as entidades. É com o coração que eles conseguem nos fortalecer, mas a gente tem que estar preparado para isso.

Tem gente que faz tanta coisa boa a vida inteira e no final sofre muito. Sofrimento é lapidação. Não devemos ter medo do sofrimento, e sim, dos nossos atos.

Eu faço o que o Guia manda. Se tiver que colocar uma flor ali, eu ponho. Se mandar acender uma vela, eu acendo, mas se não mandar, eu não faço nada.

Temos que nos preparar para o trabalho espiritual. Tomar banho de ervas, antes da gira. Preparar um amaci com ervas cheirosas. Muitas vezes, o filho faz de qualquer maneira, sem concentração. Tem que ter o dia certo, a hora certa, o local adequado. Tem que haver acima de tudo uma ordem espiritual para usar as ervas certas. Há ervas que um médium pode usar e outro não. É bom pra um e não é pra outro.

Os filhos lêem um livro que diz que uma erva é de um determinado orixá, ou no Centro que foi visitar disseram pra usar as ervas tais. Ele vai e usa a erva. Não respeita a chefia da casa à qual está subordinado. Nós temos uma chefia em nossa casa. O Caboclo Sete Flechas está trabalhando nessa casa comigo há cinquenta anos. Eu o respeito e todos os médiuns têm que respeitá-lo.

Eu assumo tudo que faço de errado. Não coloco o Guia na frente. O erro é meu. Eu nunca me queixei dos meus Guias.

Quando vinha uma dificuldade braba, eu sabia que era um aprendizado e agradecia e procurava não errar mais. Cada dia que amanhece, eu digo: “Obrigado, meu velho, por mais um dia que o senhor me deixou viver.”

Todo mundo tem que agradecer a Deus o dia de vida que nos foi dado. Esteja vivendo momentos bons ou ruins. Há momentos ruins que ensinam mais que os momentos bons. Nós aprendemos mais levando um tropeção do que ganhando um abraço ou um beijo.

Eu espero que vocês também possam comemorar os seus cinquenta anos de trabalho espiritual com o mesmo amor e fé com que eu estou comemorando hoje.

Faço um pedido a todos: “Deixem os seus Guias em paz! Não os misturem em coisas erradas. Eles não merecem isso. Eles são intocáveis. Merecem nosso respeito e carinho.”

Não queiram ser os maiores médiuns.  Não deixem a vaidade subir à cabeça. Lembrem-se que em nosso caminho há flores, espinhos e pedras. A vida de todos é de altos e baixos. Um dia, estamos em cima, em outro, estamos embaixo.

Uma obrigação tem um significado muito importante. Não devemos colocar de qualquer maneira. Não há necessidade de fazer grandes oferendas, mas dar com muito amor, com muito carinho. Isso é que é importante para os Orixás.

Esqueçam a vaidade, vamos ser humildes, ter amor e fé. A Umbanda precisa de médiuns com amor, de cabeça firme, de gente correta para fazer esse mundo crescer. É com as nossas preces e a força dos Orixás que o mundo vai melhorar.

O nosso Rio de Janeiro foi entregue a Oxossi que está presente na natureza, nas árvores, nas flores. Vamos homenageá-lo com muita vontade. Que Deus ilumine todos vocês. Muito obrigado. Paz para todos.

Peço a vocês que mantenham a fé em Deus. Nunca percam essa fé.

Às vezes, a gente fica balançado, com as pessoas falando muito no nosso ouvido, e isso atrapalha, não ajuda.

Quando estou triste, não quero ficar perto de ninguém, eu me isolo porque assim eu consigo me resolver. Deus sempre manda a ajuda que preciso, porque Ele ampara todos os seus filhos. Ele é a nossa fortaleza, nosso amparo. Tenhamos sempre fé, amor e humildade.

Obrigado por tudo.

Mérito Espiritual * por Hugo Lapa

Mérito Espiritual * por Hugo Lapa

Pergunta: Passei por muitas provações como médium. As pessoas me atacavam e tinham preconceito. Por isso, acabei largando a mediunidade. O que posso fazer agora?

Resposta: Muitos médiuns, quase todos, passam pelo que você passou e até pior. Chico Xavier também foi chamado de louco, fraude, bruxo, foi atacado, criticado e caluniado de todas as formas possíveis. Ele não era apenas a ovelha negra da família como também foi expulso de sua própria casa pelos seus parentes. Enfrentou todas as provações que possamos imaginar, mas mesmo assim continuou seu trabalho na mediunidade e depois se tornou a maior médium brasileiro de todos os tempos. Não podemos esmorecer diante das provações, diante dos ataques, diante do preconceito alheio. É preciso seguir em frente tendo fé em Deus e realizar nosso trabalho.

Precisamos pensar num ponto muito importante. Isso não serve apenas para a mediunidade, mas para a vida de todos. Se a vivência de todas as provações fosse algo fácil, simples, favorável, que mérito a pessoa teria em conseguir superar tudo? Qual o mérito de Chico Xavier tendo feito tudo o que fez e passando por todas as provas que ele passou? É um mérito espiritual altíssimo, que ele mesmo disse que o proporcionou muita paz de espírito.

Que mérito teria Jesus se não fosse sua coragem de enfrentar o poder religioso da época e mesmo assim divulgar sua mensagem? Jesus foi crucificado e humilhado diante de todos, e mesmo sabendo que isso poderia ocorrer, continuou seu ministério. Que mérito teria Joana D´Arc se tivesse negado tudo o que disse até então quando a ameaçaram com as chamas da inquisição?

Ao passar a vista sobre a vida dos grandes vultos espirituais da humanidade, observamos claramente que todo o trabalho no bem realizado por eles sofreu uma intensa perseguição e foi vítima da ignorância humana. Caso eles sucumbissem a essas provas, eles falhariam nessas missões e os frutos do seu trabalho seriam inócuos.

Não adianta desejar que nossa missão seja algo tranquilo, que tudo nos seja favorável, que todos nos ajudem, que ninguém nos critique, etc.… Pois se assim for, não há qualquer mérito, não há um galardão no céu ou em nosso interior nos aguardando. É preciso que seja difícil para que possamos superar nossos limites e evoluir.

Quanto maior é a barreira, mais alto temos que ascender para transpô-la. Por isso, sempre que você se deparar com as duras adversidades da vida, pense que, quanto pior elas forem, maior será o seu mérito espiritual e maior será a sua evolução.

Hugo Lapa