Haja paciência…* por Wellington Balbo

Haja paciência…* por Wellington Balbo

Num dia desses, parado com o carro esperando abrir o sinal, fiquei distraído e não percebi que a cor havia mudado para verde. Foi questão de uns cinco segundos, mas o suficiente para fazer com que o motorista de trás apertasse sua buzina freneticamente.

Calmamente engatei primeira e saí com o carro. Ao passar por mim, o motorista fez um sinal indecoroso, e pude ler em seus lábios uma nada amistosa homenagem à minha progenitora que, certamente, ele não conheceu, pois desencarnou há mais de 15 anos.

Mas o fato colocou-me a pensar em como estamos sempre com pressa, talvez no contrafluxo do universo. Estamos contra o fluxo do universo porque toda a mensagem que nos é enviada pede para termos mais calma ou, melhor dizendo, para treinarmos a paciência.

Quem quer tudo para ontem ainda não percebeu que a vida tem seu próprio tempo e turno. Esperar é uma tônica da vida na Terra. Mesmo que não queira, ninguém pode viver sem esperar. Um amigo, admoestado porque com frequência fazia seu chefe esperar, não perdia a piada. Ele pode esperar, aliás, esperou nove meses para nascer, não há problema algum em esperar mais 5 minutos para ter um relatório de qualidade, com informações preciosas que pouparão muito de seu tempo, dizia o ousado amigo. A verdade é que, quanto mais um indivíduo se tem em alta conta, menos ele gosta de esperar. Ah, as noivas não entram nessa análise, elas podem ter pressa e fazer os outros esperarem. Mas só as noivas…

Por essas e outras, penso que um desafio coletivo para quem vive na Terra é o de esperar. Isso mesmo. Esperamos nove meses para nascer, mais alguns anos para falar, mais um tempo para andar… Esperamos no trânsito, nas filas, esperamos para aposentar, esperamos chegar a Olimpíada e a Copa do Mundo, esperamos as férias e as sextas-feiras, esperamos o amigo, esperamos o exame chegar, a conexão da net, esperamos alguém ligar e, pasmem, esperamos até a felicidade.

Isso sem contar que até quem paga a conta espera o médico chegar, já quem depende do SUS… Bem, quem depende do SUS nem sabe se o médico chegará…

Aliás, paciência para esperar que a dor passe ou a fase difícil vá embora já é, por si, um remédio que alivia. Sim, um remédio. Quanto mais nos desesperamos, mais as dores, sejam elas de ordem moral ou física, tornam-se fortes. A paciência é o remédio que permite diminuir a potência da dor. Há, aliás, bela mensagem em “O Evangelho segundo o Espiritismo” que traz o nome de “Paciência”. A mensagem diz, entre tantas coisas bacanas, que, quando olhamos para baixo, verificamos que outras tantas pessoas sofrem dores mais agudas do que as nossas. Ou seja, é preciso treinar a paciência e aprender a esperar, pois tudo, absolutamente tudo, passa, e, quando temos mais resignação, as dores não se tornam insuportáveis.

O trânsito é mais leve, o médico chega mais rápido, os exames não demoram tanto, a conexão da net funciona de forma mais eficaz quando exercitamos a paciência.

Então, de tudo que abordamos, cabe-nos entender que é importante conquistar a paciência, e que a vida nos treina para isso constantemente.

Nem sempre o tempo que julgamos certo o é para Deus, eis por que ele dotou a vida repleta de situações que nos ensinam um belo aprendizado: aprender a esperar, enfim, buscar a paciência para que a vida seja mais leve, menos estressante.

Até porque não existe vida sem espera… E haja paciência…

                           Wellington Balbo

Auto da Lusitânia (fragmento) * Luciano Nascimento

Auto da Lusitânia (fragmento) * Luciano Nascimento

O fragmento abaixo é parte do “Auto da Lusitânia”, um texto teatral de Gil Vicente, escritor português do séc. XVI. É um diálogo de que participam quatro personagens: Todo o Mundo (um rico mercador), Ninguém (um pobre), Belzebu e Dinato (dois demônios). As passagens que sublinhei vêm seguidas depequenas intervenções minhas no texto [entre colchetes], a fim de torná-lo um pouco mais claro. Vamos a ele.

Auto da Lusitânia (fragmento)

Entra Todo o Mundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este se chama Ninguém e diz:

Ninguém: Que andas tu aí buscando?

Todo o Mundo: Mil cousas ando a buscar: delas não posso achar, porém ando porfiando[teimando] por quão bom é porfiar.
NinguémComo hás nome, cavaleiro?[Qual é seu nome]
Todo o Mundo: Eu hei nome Todo o Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo.
Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.
Belzebu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
Dinato: Que escreverei, companheiro?
Belzebu: Que Ninguém busca consciência.
e Todo o Mundo dinheiro.
Ninguém: E agora que buscas lá?
Todo o Mundo: Busco honra muito grande.
Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.
Belzebu: Outra adição nos acude:
[ocorre]
escreve logo aí, a fundo,
que busca honra Todo o Mundo
e Ninguém busca virtude.
Ninguém: Buscas outro mor bem qu’esse?
[bem maior que esse]
Todo o Mundo: Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fizesse.
Ninguém: E eu quem me repreendesse
em cada cousa que errasse.
Belzebu: Escreve mais.
Dinato: Que tens sabido?
Belzebu: Que quer em extremo grado
Todo o Mundo ser louvado,
e Ninguém ser repreendido.
Ninguém: Buscas mais, amigo meu?
Todo o Mundo: Busco a vida a quem ma dê.
[me a dê, a vida]
Ninguém: A vida não sei que é,
a morte conheço eu.
Belzebu: Escreve lá outra sorte.
Dinato: Que sorte?
Belzebu: Muito garrida:
[engraçada]
Todo o Mundo busca a vida
e Ninguém conhece a morte.
Todo o Mundo: E mais queria o paraíso,
sem mo Ninguém estorvar. [sem Ninguém me atrapalhar]
Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.
Belzebu: Escreve com muito aviso.
Dinato: Que escreverei?
Belzebu: Escreve
que Todo o Mundo quer paraíso
e Ninguém paga o que deve.
Todo o MundoFolgo muito d’enganar,
[gosto]
e mentir nasceu comigo.
Ninguém: Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar.
Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
Dinato: Quê?
Belzebu: Que Todo o Mundo é mentiroso,
E Ninguém diz a verdade.

[…]

Gil Vicente

 

Repetindo: o texto de Gil Vicente é do séc. XVI. Será que realmente evoluímos desde então?

Cabe perguntar a si mesmo: “Com quem eu me pareço mais? Com Todo o Mundo ou com Ninguém?”

Luciano Nascimento

 

 

 

O cético e o lúcido

O cético e o lúcido

“No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebês. O primeiro pergunta ao outro:

– Você acredita na vida após o nascimento?

– Certamente. Algo tem de haver após o nascimento. Talvez estejamos aqui, principalmente, porque nós precisamos nos preparar para o que seremos mais tarde.

– Bobagem! Não há vida após o nascimento. Como verdadeiramente seria essa vida?

– Eu não sei exatamente, mas certamente haverá mais luz do que aqui. Talvez caminhemos com os nossos próprios pés e comamos com a boca.

– Isso é um absurdo! Caminhar é impossível. E comer com a boca é totalmente ridículo! O cordão umbilical nos alimenta. Eu digo somente uma coisa: a vida após o nascimento está excluída. O cordão umbilical é muito curto.

– Na verdade, certamente há algo. Talvez seja apenas um pouco diferente do que estamos habituados a ter aqui.

– Mas ninguém nunca voltou de lá, depois do nascimento. O parto apenas encerra a vida. E afinal de contas, a vida é nada mais do que a angústia prolongada na escuridão.
– Bem, eu não sei exatamente como será depois do nascimento, mas com certeza veremos a mamãe e ela cuidará de nós.

– Mamãe? Você acredita na mamãe? E onde ela supostamente está?

– Onde? Em tudo à nossa volta! Nela e através dela nós vivemos. Sem ela tudo isso não existiria.
– Eu não acredito! Eu nunca vi nenhuma mamãe, por isso é claro que não existe nenhuma.
– Bem, mas às vezes quando estamos em silêncio, você pode ouvi-la cantando, ou sente como ela afaga nosso mundo. Sabe, eu penso que só então a vida real nos espera e agora apenas estamos nos preparando para ela.”